domingo, 28 de agosto de 2011

TORAH ORAL

Os Mitos do Ciclo Trienal

Por Sha'ul Bentsion
Baseado em varias fontes
Introdução
        Recentemente nos meios daqueles que trabalham com as raízes hebraicas da fe (ie. messiânicos,  nazarenos, etc.) tem ganhado forca a idéia de que o ciclo anual de leituras das parashiot (porções semanais) da Tora seria uma mudança artificial dos rabinos, posterior, e que teria substituído um ciclo trienal, que divide a Tora em porções menores para leitura em três anos, supostamente mais puro e original, e que supostamente teria sido praticado por Yeshua.
        Esse tipo de conclusão e totalmente desprovido de bases bíblicas ou históricas, mas tem sido responsável pela propagação de uma serie de mitos. Aqui faremos uma analise bíblica e/ou histórica de cada um desses mitos, para separarmos fatos de suposições.
Mito: O ciclo trienal começou no Sinai.
Fato: A Tora nada nos diz a respeito de um ciclo trienal para leitura. Para aceitarmos tal coisa, teríamos que supor uma “Tora Oral” que, como já vimos, é incompatível com a própria Tora, que afirma que todas as palavras que Mosheh (Moisés) nos deixou foram escritas. Alem disso, se fossemos supor uma tradição oral para leitura da Tora desde os tempos do Sinai, teríamos um grande problema. A Bíblia nos relata pelo menos uma situação emque a Tora foi tão esquecida que nem os governantes sabiam mais o seu conteúdo integral! Uma vez foi nos tempos de Yoshiyahu, cujo pai (Menashé) havia sido mau aos olhos de YHWH. Isso e relatado em Melachim Beit (2 Reis) 22:8,11.13, que diz:
“Então disse o cohén gadol (Sumo sacerdote)  Hikiyahu ao escrivão Shafan: Achei o livro da Torá na casa de YHWH. E Hilkiyahu deu o livro a Shafan, e ele o leu... Sucedeu, pois, que, ouvindo o rei as palavras do livro da Torá, rasgou as suas vestes. E o rei mandou a Hilkiyahu, o cohén, a Achicam, filho de Shafan, a Achbor, filho de Michayah, a Shafan o escrivão e a Assayah, o servo do rei, dizendo: Ide, e consultai a YHWH por mim, pelo povo e por todo Yehudá, acerca das palavras deste livro que se achou; porque grande é o furor de YHWH, que se acendeu contra nós; porquanto nossos pais não deram ouvidos às palavras deste livro, para fazerem conforme tudo quanto acerca de nós está escrito.”

 Ora, se os governantes não tinham mais conhecimento nem mesmo da Tora (o que restava era apenas o que fora transmitido oralmente), quem dirá da forma de lê-la!
A Real Origem do Ciclo Trienal
       O habito de dividir a Tora em porções começou no primeiro exílio do povo de Yehudah (Judá). Apos o retorno do povo do primeiro cativeiro babilônio, havia uma espécie de consenso de que o povo havia sido tomado cativo por desconhecer a Tora. Assim sendo, gerou-se em Israel uma comoção para que o povo pudesse meditar de forma constante na Tora. As sinagogas, organizações criadas na diáspora babilônia na tentativa de se manter vivo o Judaísmo, adotavam leituras publicas da Tora. Foi exatamente nessa época que a Tora começou a ser dividida para ser lida em trechos, a cada Shabat. Posteriormente, a época de Antioco Epifânio, por volta do século 2 AC, quando a leitura da Tora foi proibida, especula.se que tenham sido criadas as porções de haftará, isto e, leituras dos textos proféticos que seriam equivalentes aos trechos da Tora. Contudo, segundo relatos históricos (como o de Maimonides em Hilchot Tefilá 13:1), foi apenas muitos séculos depois do segundo exílio que o povo de Israel adotou sistemas mais universais para leitura da Tora. Hoje em dia, a maior parte das sinagogas segue o sistema anual, enquanto algumas sinagogas sefaraditas seguem um sistema trienal que foi posteriormente unificado para ter equivalência mínima ao sistema anual, como veremos mais adiante.
Mito: Moshe (Moisés) determinou a divisão da Torá em Parashiot (porções semanais) para serem lidas em três anos.
Fato: A própria Tora nos diz o contrario. O próprio Judaísmo aponta para o fato de que inicialmente, havia a mitsvá (mandamento) de Hachel. Tal mitsvá encontra-se descrita em Devarim (Deuteronômio) 31:9.13:
“E Moshe escreveu esta Torá, e a deu aos cohanim (sacerdotes), filhos de Levi, que levavam a arca da aliança de YHWH, e a todos os anciãos de Israel. E ordenou-lhes Mosheh, dizendo: Ao fim de cada sete anos, no tempo determinado do ano da remissão, na festa de sukot (cabanas), quando todo o Israel vier a comparecer perante YHWH teu Elohim, no lugar que ele escolher, lerás esta Torá diante de todo o Israel aos seus ouvidos. Ajunta o povo, os homens e as mulheres, os meninos e os estrangeiros que estão dentro das tuas portas, para que ouçam e aprendam e temam a YHWH vosso Elohim, e tenham cuidado de fazer todas as palavras desta Torá; E que seus filhos, que não a souberem, ouçam e aprendam a temer a YHWH vosso Elohim, todos os dias que viverdes sobre a terra a qual ides, passando o Yarden (Jordão), para a possuir.”
        Aqui vemos claramente qual era a instrução inicial de Mosheh: Os rolos de Tora eram escassos e ficavam de posse somente dos cohanim (sacerdotes) e os roshs (cabeças) das tribos. Para se ter uma idéia, hoje em dia, um rolo de Tora para ser copiado leva anos, e dificilmente custa menos do que uns 20 mil reais. Não é, portanto, nenhuma surpresa que o povo não tinha acesso fácil a Tora semanalmente. Este é um privilegio que nos temos, mas que eles não possuíam. Assim sendo, a recomendação de Mosheh era que ao termino do ciclo de cada 7anos, o povo se reuniria durante a festa de Sukot (tabernáculo). Ao longo dos sete dias em que o povo estivesse reunido em Yerushalayim (Jerusalém) e adjacências, os cohanim (sacerdotes) e os lideres do povo leriam toda a Tora para que o povo a conhecesse. Portanto, como podemos ver não havia nenhum sistema de leitura trienal, como ainda o sistema que havia era baseado em uma única leitura continua, a cada sete anos.
Mito: As sinagogas reformistas e conservadoras adotam o ciclo trienal, e essa prática é cada vez mais difundida.
Fato: Tal mito vem de uma investigação superficial. Sobre a prática, a Enciclopédia Judaica afirma:
“Ao longo dos séculos 19 e 20, muitos conservadores, reformistas e outros movimentos judaicos mais recentes como reconstrucinistas e renovados adotaram um ciclo trienal distinto da prática histórica do Israel antigo, dividindo os sedarim anuais em três partes, e lendo um terço de cada durante a semana apropriada do ano. (A prática antiga era a de ler cada seder em ordem serial independentemente da semana do ano, concluindo a Torá inteira em três anos em uma forma linear).”
Ou seja: Sinagogas conservadoras, reformistas, etc. muitas vezes acham a porção da parashá longa demais, e a dividem em três partes. Por exemplo, Parashá Bereshit (GN) partes 1, 2 e 3. No primeiro ano, lêem a parte 1, no segundo, a parte 2, e no terceiro a parte 3. Ou seja, a ordem seguida ainda e a ordem de leitura anual. Apenas, as porções não são lidas integralmente.
Mito: O ciclo trienal permanece inalterado até os dias de hoje.
Fato: Primeiramente, e fato sabido que o principio do ciclo não era no sétimo mês, e sim no primeiro. A mudança do inicio e posterior, conforme relata Adolph Buchler em sua obra “A Leitura da Lei & Profetas em um Ciclo Trienal”, pode ser atribuída ao talmudista Aba Arika, no segundo século da era comum. Sobre isso, Buchler escreve:
“Foi então acordado [pelos rabinos] que Deut. 28 ocorreria antes do Ano Novo, e que o princípio do ciclo viria imediatamente depois da Festa de Tabernáculo. Essa disposição foi mantida pelos caraítas e por congregações modernas.”
O segundo e que ninguém tem certeza de qual era o modelo original do ciclo trienal, pois existem vários modelos conhecidos, conforme relata a Enciclopédia Judaica:
“As divisões massoréticas conhecidas como ‘sedarim’ e várias vezes indicada no texto, somam 154 no Pentateuco e provavelmente correspondem, portanto, às lições de Shabat do sistema trienal, como foi primeiramente proposto por Rapoport (“Halikot Kedem,” p.11). O número varia, contudo, de modo que Menahem Me’iri reconheceu 161divisões, correspondendo ao maior número de Shabatot (sábados) possíveis em três anos. Então, as gramáticas e rolos do Pentateuco iemenitas enumeram 167 (vide Sidra); e o tratado Soferim (16:10) dá o número como 175 (compare Yer. Shab. 1:1). É possível que essa última divisão corresponda a um desenvolvimento posterior pela qual todo o Pentateuco era lido duas vezes em sete anos, ou uma vez a cada três anos e meio.”
Tim Hegg, em sua obra “The Public Reading of the Scriptures in the 1st Century Synagogue”, vai alem, e não apenas enumera pelo menos cinco possíveis divisões para o ciclo trienal, como ainda comenta o fato de que não existe qualquer indicativo de como as divisões eram feitas:
“Ainda assim, não temos dados suficientes para sabermos precisamente que porções da Torá compunham o ciclo trienal, e existe menos informação ainda para as leituras da haftará. Além disso, não está completamente claro que o chamado ‘ciclo trienal’ era de fato concluído em três anos. Os manuscritos hebraicos da era massorética (c. 600-1000 EC), além de conterem sinais vocálicos (nikudot), acentos (ta’amim), e divisões de versículo e parágrafo, também dividem o texto em seções para leitura pública. Quer ao final de cada livro ou nas notas da Massorá, os massoretas dão o total de versículos (chamados pessukim) e o número total de porções de leitura (chamadas sedarim). Mas nem todos os manuscritos concordam no número de sedarim. O Codex Leningrado, por exemplo,
tem um total de 167 sedarim para a Torá... Um ciclo composto de 167 sedarim obviamente levaria mais do que três anos para ser concluído, especialmente quando levamos em conta que as porções das festas e dos Shabatot (sábados) especiais suspendiam a leitura regular da Torá... Outros manuscritos e listagens rabínicas oferecem vários totais para os sedarim: 175, 158, 155, 154 e 141. Finalmente, o dividir a Torá em 154 sedarim se tornou um costume difundido em séculos posteriores, presumidamente porque o objetivo era concluir o ciclo em três anos. Ao fazer isso, significava que uma vez a cada três anos eles concluiriam a leitura da Torá de forma sincrônica com aqueles que usavam o ciclo anual. Porém, o fato de que diferentes contagens de sedarim continuaram a existir (como os manuscritos bíblicos indicam) significa que o princípio e o fim do ciclo de leitura também variava dentre algumas das comunidades judaicas.”
        Como podemos ver não se sabe sequer se o “ciclo trienal” de fato era realizado ao longo de três anos, ou se ao longo de três anos e meio (metade de um ciclo de sh’mita), ou mesmo o numero de parashiot envolvidos nesse ciclo. Não apenas não sabemos qual o primeiro sistema a ser adotado, como temos comprovações históricas de que ele sofreu alterações ao longo do tempo.
        Se formos considerar a haftará então, a coisa ainda e mais complicada, pois como se tratava de um costume muito posterior, não havia uma regra fixa sobre haftará nas sinagogas. Muitas sequer realizavam essa leitura, e faziam dos Escritos apenas um material para consulta e enriquecimento do estudo da Tora. Sobre isso, Hegg comenta:
“... quando o rolo de Isaías foi dado a Ye’shua, do qual Ele leria, não podemos ter certeza se o assistente deu a Ele o rolo de Isaías porque ele continha a leitura programada, ou se Ye’shua o solicitou porque Ele pessoalmente escolheu ler de Yeshayahu (Isaías) naquele Shabat (sábado).
Contudo, se permitirmos que textos rabínicos posteriores dêem luz a essa história das Boas Novas, os dados sugerem que um sistema de leitura fixa dos Profetas veio em tempo posterior e que no primeiro século existia liberdade considerável para as comunidades locais e até mesmo indivíduos para escolherem a porção profética apropriada para acompanhar a porção da Torá particular lida naquele Shabat. Isso pode ser demonstrado comparando m.Meguilá 3:4-6 com seu texto paralelo na Tosefta. No texto da Mishná, a porção da Torá (seder) para os quatro Shabatot em Adar é nomeada, mas não há menção das haftarot de acompanhamento. Contudo, a Tosefta não apenas reitera os mesmos sedarim da Torá para cada um dos quatro Shabatot mas também identifica a leitura aceitável dos Profetas para cada uma delas. Isso indicaria que um ciclo reconhecido de leituras de haftarot não existia até o final do 2º Século ou o princípio do 3º. Século. E mesmo quando as leituras das haftarot começaram a ser compiladas, diferenças continuaram a existir dentre as comunidades judaicas.”
Mito: Todos os grupos de judeus primitivos utilizavam a mesma forma
de leitura (ie. o ciclo trienal)
Fato: Como vimos anteriormente, temos varias formas de divisão de ciclo de leitura. E fato que alguma forma de ciclo trienal é mais antiga do que o ciclo anual, mas qual delas? Não são como vimos acima, não ha como saber, como ainda existem indícios de que a forma de dividir as leituras da Tora variava de grupo para grupo. Os manuscritos de Qum’ran, por exemplo, não apresentam divisões setoriais. Já as marcações da LXX freqüentemente discordam da interpretação massoréica, demonstrando que não podemos tomar a Massora como fonte para afirmarmos que a divisão de leitura da Tora ocorria exatamente daquela maneira. A própria existência de divergência quanto à fonte de manuscrito tida como canônica já é por si só indicio de divergência no sistema de leitura. Não havia um sistema unânime nos tempos de Ye’shua para todos os grupos. É provável que sequer houvesse unanimidade mesmo entre sinagogas de um mesmo grupo porem geograficamente distantes.
Mito: O ciclo trienal nos permite lermos a Torá exatamente da forma que Ye’shua leu.
Fato: Que ciclo trienal? Que manuscrito consideraremos? Qual das 5 possíveis divisões? Consideraremos o inicio no sétimo mês ou no primeiro? Temos certeza de que Ye’shua leu a Tora conforme a divisão dos grupos farisaicos, únicos a sobreviverem apos a destruição de Israel? São perguntas cuja mera tentativa de resposta já entra no campo da interpretação. Sobre isso, Hegg comenta com muita propriedade na obra citada anteriormente:
“Se esperávamos que a descrição rabínica do ciclo trienal nos ajudaria localizar, por exemplo, que porção da Torá era lida no Shabat que Ye’shua leu de Isaías 61 (conforme observado em Lucas 4), encontramos exatamente o oposto. Ao invés de descrever um ciclo universal de leituras, a literatura rabínica mostra uma prática de sinagoga ainda em formação, e portanto bastante diversificada.”
De fato, como podemos ver qualquer tentativa de reconstruir o ciclo de leitura da Tora nos tempos de Ye’shua seria um exercício de pura especulação.
Mito: O ciclo trienal é importante para determinação do calendário.
Fato: Historicamente, a conclusão e diametralmente oposta. O ciclo trienal foi concebido com base no calendário, e não o contrario. De fato, todas as alterações, tanto no ciclo trienal, quanto no ciclo anual, ocorreram sempre para adequar o ciclo ao calendário, e não o contrario. Um exemplo disso e o que vimos anteriormente acerca da mudança do inicio do ciclo do primeiro mês para o sétimo, refletindo a mudança de Rosh HaShana (ano novo), conforme já explicada em outros materiais. Alem de não existir qualquer relato histórico de que o calendário fosse baseado no ciclo de leitura da Tora, também não existe nada na própria Bíblia que nos faca concluir tal coisa. Conforme temos visto em nossos exaustivos estudos sobre o tema, o calendário bíblico baseia-se única e exclusivamente em três elementos, conforme descrito em Bereshit (Genesis):
“E disse Elohim: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi. E fez Elohim os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.” (Bereshit/Gênesis 1:14-16)
A afirmação de que o ciclo seja um elemento cilíndrico (e não o contrario) é absurda tanto histórica quanto biblicamente, e portanto pode ser descartada.
Mito: O ciclo anual é babilônio, e portanto de origem pagã/duvidosa.
Fato: Dois problemas com essa afirmação: O primeiro esta no fato de que o ciclo trienal, como vimos, também se desenvolveu na Babilônia. O segundo e que algumas pessoas insistem em confundir dois conceitos distintos. Uma coisa e um costume ter se originado no período do exílio babilônio, quer no primeiro (durante o cativeiro) quer no segundo, apos a destruição de Israel. Outra coisa muito diferente e o costume se originar no sistema religioso babilônio.
         Se formos jogar fora algo que se originou durante o período em que o povo esteve na Babilônia, a primeira coisa que temos que fazer é jogar fora o livro de Dani’el. Afinal, Dani’el escreveu durante sua permanência na corte de Nabucodonosor. Isso faz do livro de Dani’el algo maligno ou pagão? De forma alguma! E um livro absolutamente unânime entre as comunidades judaicas. Não nos esqueçamos de que ate mesmo quando YHWH chamou a Avraham(Abraão), ele vivia no reinado de Nimrod. Devemos tomar muito cuidado para não confundirmos conceitos que são completamente diferentes. Afinal, todo o sistema das sinagogas, sistema esse que deu origem a praticamente TODAS as formas de culto na sociedade judaico-crista (afinal as igrejas derivam da pratica da sinagoga). Todo esse sistema surgiu durante o período no exílio Babilônio. Se isso devesse nos incomodar, por que Ye’shua citou Dani’el e pregou nas sinagogas? E importante cuidarmos para não cairmos em radicalismos sem qualquer fundamento. De fato, o ciclo trienal e anterior ao ciclo anual. Contudo, isso não o faz melhor do que o ciclo anual, “mais puro” ou qualquer coisa parecida.
Mito: O ciclo trienal é mais puro do que o ciclo anual, e mais próximo do que Ye’shua fez.
Fato: Se tanto um quanto outro são invenções humanas (boas, por sinal) para dividir a Tora de modo a permitir uma leitura constante da Tora por parte do povo, não ha razões para supor que uma forma seja superior a outra. É preciso saber separar o que Ye’shua fez indicando que devemos fazer de forma semelhante, e aquilo que simplesmente era o costume da época. Por exemplo, a época, em muitas sinagogas as pessoas se sentavam no chão para estudarem. Devemos supor então que o uso de cadeiras seja algo negativo? Os homens usavam sandálias. Devemos com isso abolir os sapatos? Fato e que o principal a ser feito já é dito nas Escrituras:
“Oh! quanto amo a tua Torá! É a minha meditação em todo o dia.” (Tehilim/Salmos 119:97)
Separando Fatos de Mitos
Não ha nada de errado na opção por seguir o ciclo trienal. Ate pode ter suas vantagens em alguns aspectos, como por exemplo, o fato de que e um ciclo que foi mais projetado para que as leituras bíblicas sigam mais ou menos as épocas do ano em que alguns dos eventos teriam ocorrido. Assim como o ciclo anual tem as suas vantagens, como por exemplo, o fato de que estimula muito mais estudo da Tora (razão pela qual ele foi adotado) e o alinhamento com o restante da comunidade judaica, que estuda a mesma porção de texto a cada semana.
Fatos sobre o Ciclo Trienal
. E mais antigo do que o ciclo anual;
. Algumas formas de ciclo trienal (variando de 3 a 3,5 anos) eram de fato adotadas como pratica nas sinagogas farisaicas na época de Ye’shua;
. Ajusta melhor o texto bíblico as estações do ano.
Mitos Levantados
. Sofreu alterações ao longo da historia;
. Não havia modelo unânime de ciclo trienal no primeiro século nas sinagogas farisaicas;
. Não ha nenhum indicio de que outros segmentos judaicos (como essênios e saduceus) adotassem esse modelo de divisão semanal de leitura (é possível que tivessem os seus próprios);
. Não e um costume originado no Sinai;
. Não e mandamento bíblico;
. Originou-se na diáspora babilônia, exatamente como o ciclo anual se originaria na segunda diáspora;
. Não foi instituído por Mosheh (pelo contrario, o povo ate esqueceu a Tora depois disso pelo menos mais uma vez);
. Não foi enfatizado por Ye’shua como pratica a ser seguida;
. Não ha como chegarmos ao modelo que Ye’shua utilizou . trata-se de uma impossibilidade histórica;
. Não ha como sabermos sequer se as sinagogas que Ye’shua frequentou tinham porções de haftará;
. Não é usado para determinar qualquer evento do calendário de YHWH.
Conclusão
Cada um adote o modelo que desejar. Nada temos contra quem adota o ciclo trienal, porem é importante que não se adote o ciclo trienal pelos motivos errados. Assim sendo, uma pergunta fica, para reflexão: Se já somos forcados a nos separarmos do Judaísmo convencional em questões onde o Judaísmo convencional não segue as Escrituras, pra que vamos buscar nos distanciarmos ainda mais sobre frivolidades e coisas sem qualquer comprovação histórica? Muito mais proveitoso e, neste caso, acompanhar o restante da comunidade judaica, já que não ha qualquer recomendação bíblica contraria. Devemos valorizar nossa identidade israelita, e não jogá-la fora a qualquer custo. O que me causa mais estranheza e que nos EUA alguns dos proponentes desse modelo adotam e seguem o calendário rabínico que é francamente contrario as Escrituras. Admira-me que em elementos onde a Bíblia é posta em xeque haja conformismo, e em pontos onde as Escrituras são silenciosas, existe insurgência contra a identidade judaica. Tal tipo de posicionamento é praticamente incompreensível, irracional e perigosamente sectário. Parece muito mais uma rebeldia de Efrayim do que um motivo legitimo. Sejamos sempre cônscios do que é servir a YHWH e pertencer a Israel.

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